Hoje farei algumas considerações acerca de dois textos que li.
O primeiro, Gleiser critica rumos da física, em palestra no câmpus da Barra Funda (do Portal UNESP), é uma entrevista com o físico brasileiro Marcelo Gleiser, em virtude de uma palestra proferida à plateia de professores e estudantes do Instituto de Física Teórica (IFT).
Professor de Física e Astronomia do Dartmouth College em Hanover (EUA), onde dirige um grupo de pesquisa em Física Teórica, Gleiser também é conhecido por seu trabalho como divulgador científico, em livros, artigos, programas de televisão, documentários e consultoria para o cinema.
Na entrevista, Gleiser conversa sobre os fatores metodológicos que o levaram a mudar de ideia em seu entendimento científico sobre uma "teoria total". Ele classifica como "metafísica" a busca de uma teoria única para as forças da natureza (eletromagnetismo, gravidade, nuclear forte e nuclear fraca). Segundo ele, "existe toda uma fachada da realidade que é absolutamente invisível para nós" , decorrente, sobretudo, da imprecisão dos nossos intrumentos de medida. "É impossível, a priori, construir uma teoria total da natureza porque você nunca vai ter a totalidade de informação da natureza para poder demonstrar se essa teoria está certa ou se está errada."
Ele também faz críticas ao que classifica de dogma, na busca de setores da ciência pela predominância de uma teoria, como, segundo ele, é o caso das supercordas.
A teoria das Supercordas (confira a Entrevista com Brian Greene na Revista Época), que "encabeça" essa tentativa de unificar as forças do universo, sugere que o universo seja formado por minúsculas cordas, que, de acordo com sua disposição e vibração, modelam tudo o que existe. Ela propõe ainda que o universo não é formado pelas quatro dimensões que conhecemos hoje (comprimento, largura, altura - ou, em outros termos, profundidade, espessura - e o tempo, considerado a quarta dimensão), mas sim por nada menos que DEZ dimensões (o que ainda não passa de especulação matemática).
Marcelo Gleiser já manifestou em várias ocasiões sua oposição a essa teoria. Ocorre que a teoria das Supercordas até consegue reunir três das quatro forças do Modelo Padrão (energias nucleares forte e fraca e o eletromagnetismo). Só que a gravidade ainda é um problema. Como encaixá-la no quebra-cabeça? Resposta: os cientistas ajustam os parâmetros e tudo se resolve. Testam as teorias em energias maiores, o que dificulta a falseabilidade (capacidade de verificar se uma ideia está errada) dessa teoria.
A falseabilidade é vista como fundamental para a aceitação de uma teoria.Pode-se provar que uma teoria está certa ou que está errada. Acontece que com esse ajuste nos parâmetros, ou seja, essa constante modificação nos instrumentos e nos processos de medição, fica mais difícil falsear. É um tipo de experimentação seletiva, subjetiva, em que o especialista como que "decidisse" aquilo que quer observar.
No tocante da entrevista, Gleiser disse uma frase interessante, de modo que convém discuti-la aqui:
"(...) você pode construir uma teoria completamente errada e que seja compatível com um fato concreto. A compatibilidade de uma teoria com um fato não significa que ela esteja certa."
Trata-se de uma assertiva extremamente verídica. Só para dar um exemplo bem simples, um estudante do Ensino Fundamental poderia achar que o quadrado de um número é igual ao dobro desse número, tomando como base o número 2. Como se sabe, só porque isso é verdade para o número dois não significa que seja verdade para qualquer número. Apesar disso, ainda é algo que suscita muita confusão para algumas pessoas, menos acostumadas à álgebra.
Usarei essa frase de "gancho" para o segundo tema de discussão. É a respeito de um post do blog Brontossauros em Meu Jardim, editado por Carlos Hotta: A Calvaria e o Dodô. Ele faz uma reflexão sobre o Método Científico (modo como os cientistas realizam seus experimentos e elaboram seus postulados e teorias) a partir de um caso específico, o de um artigo publicado pelo biólogo e ecologista americano Stanley Temple em 1977, na revista Science.
Temple sugeriu que a "quase-extinção" da árvore Calvaria major (cuja população nas ilhas Maurício era de apenas 13 indivíduos) era devida à extinção, em 1680, do pássaro Dodô. Segundo ele, a semente era ingerida pelo Dodô, cuja moela era capaz de desgastar a grossa casca (de mais de 1,5 cm) do fruto, permitindo a germinação da Calvaria junto com suas fezes.
A hipótese mostrava de forma indiscutível a interrelação de duas espécies, de modo que foi contada inúmeras vezes por ambientalistas tentando educar crianças e adultos pelo mundo. Ela mostrava como o destino de duas espécies pode estar intimamente ligado e como deveríamos ter muito cuidado ao alterar o meio ambiente.
Estudos posteriores mostraram que as sementes da Calvaria conseguem germinar mesmo sem nenhuma abrasão na sua casca pois ela simplesmente racha após um tempo no solo. Além disso, censos populacionais feitos em 1991 revelaram que há centenas de Calvaria de todas as idades nas ilhas Maurício, apesar de a população ser ainda bastante reduzida, principalmente por causa do desmatamento e a introdução de espécies como porcos e veados nas ilhas.
E o mais importante: no procedimento experimental de Temple (feito com perus - o peru é semelhante e possui um grau de ancestralidade com o Dodô), ele alimentou perus com 17 sementes e viu que 3 germinaram depois. Só que ele não pegou 17 sementes e as colocou no solo para ver quantas germinavam sozinhas.
Ou seja: não é possível saber se o sistema digestório dos perus (ou dos Dodôs) realmente ajudaram a germinação das sementes. Acresce-se que não se sabe se realmente o Dodô se alimentava das sementes da Calvaria.
Observa-se aí a falha de Temple: ele inferiu que os Dodôs se alimentavam das sementes da Calvaria, porque tinham uma moela "poderosa" (e de fato tinham). Houve uma compatibilidade evidente, mas que, na utilização de um procedimento experimental que impossibilitava a conquista de uma certeza empírica, deixou lacunas. Não é porque os Dodôs tinham uma moela "poderosa" que eles deveriam necessariamente se alimentar dessas sementes.
O texto termina com a seguinte frase: "A história de Temple mostra que nem sempre devemos nos apaixonar por nossas hipóteses: ao tentar alcançá-las, nem percebemos quando a dura realidade acaba nos afogando."
Volto à frase de Marcelo Gleiser:
"(...) você pode construir uma teoria completamente errada e que seja compatível com um fato concreto. A compatibilidade de uma teoria com um fato não significa que ela esteja certa."



O modelo padrão apenas explica três (3) dos quatro tipos de força que existem na natureza: a eletrofraca (interação eletromagnética e interação fraca) e interação forte. O modelo padrão não explica gravitação, nem explica completamente os leptons (o eletron é um lepton).
ResponderExcluirQuanto a escolha dos parametros presentes no modelo padrão, é explicada por mecanismos de quebra espontanea de simetria devido a estrutura interna das particulas elementares! Não há no modelo padrão motivo algum para que a massa do eletron seja diferente da massa do proton! No máximo conseguimos estimar a ordem de grandeza dessas massa a partir de hipoteses razoaveis!
Na busca de uma teoria que englobe as interações gravitacionais, foi desenvolvida as teorias de cordas (sim, uma legião de teorias pq são muitas!)
ResponderExcluirpara analisar a estrutura cada vez mais interna das particulas é necessaria energias cada vez mais altas, e isso sempre foi um problema. Em algumas teorias de cordas estima-se q o acelerador de particulas capaz de mostrar de forma indubitavel que as cordas existem seria do tamanho da via lactea!
mas o sonho da unificação das forças vem de muito tempo atras, desde que juntamos a eletricidade com a optica. Dizer que a teoria das supercordas é errada é uma afirmação leviana, no máximo pode-se dizer que elas não geram predições que podemos medir por enquanto!
quanto as dimensões extras que algumas teorias físicas exigem na descrição do 'realidade', normalmente elas são introduzidas para que a teoria apresente algumas simetrias que encontramos experimentalmente!
Quanto ao dodô, acretido que um curso básico de método cientifico e de lógica seriam muito uteis em todas as areas da ciencia!
Como sugestão de leitura, desta vez deixo pra vc e para os seus leitores a pagina da wikipedia(inglesa)
sobre o modelo padrão!
http://en.wikipedia.org/wiki/Standard_Model
abraço e parabens pelo blog!
Caro Zé,
ResponderExcluirEu não acho que a Teoria das Supercordas é uma teoria leviana. Eu a respeito, à guisa de algumas suspeitas e de um conhecimento não muito profundo na área. Apenas fiz uma exposição crítica do pensamento de Marcelo Gleiser (que creio também não achar isso, mas que a busca pela unificação seja mais metafísica do que física).
Obrigado por sua explanação teórica, pelo comentário, pelos parabéns e pela indicação do link. Continue acompanhado o blog!
Abraço,
Rafael Tadeu de Matos Ribeiro.